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Infância 

     Eu fui dessas crianças caladas, que fica quietinha e observa tudo a sua volta. Talvez por ter sido um bebê que chorava muito de fome, dizia minha mãe. Que eu chorava, chorava e quando finalmente levou ao médico ele disse: ela tem fome. Então quando entrei na linguagem acho que imaginei que já tinha pedido demais, e aí não pedi mais nada. Guardava as coisas pra mim e delirava que os meus movimentos poderiam causar grandes catástrofes. Dessa forma eu tentava deixar tudo arrumado. Virei especialista em dobrar roupas e me preocupar com todo mundo. Notava tudo, e sabia todos os horários e quais eram os barulhos normais de cada dia, e quando algum saia do lugar eu me preocupava em resolver. Aprendi muito rápido a língua dos adultos, e eles não diziam palavras inteiras, então eu me ocupava da importância das meias palavras - menos pesadas. Aprendi a imitar qualquer lugar com maestria e naturalidade, me encaixava em qualquer proposta qualquer ambiente.
       Eu fui dessas crianças que fez análise muito cedo, tinha uma das mães que era psicanalista, e por não falar e me preocupar demais ela achou que seria bom. Diz ela que fui eu quem pedi pra falar com alguém neutro. Não me lembro dessa demanda, mas consigo sentir o nó na garganta como uma gaveta emperrada cheia de palavras.
       Na análise eu brincava, eu perguntava de tudo, eu queria saber se os outros me amavam mesmo e porque eles estavam ali. Eu passava bilhetes para a minha analista com essas perguntas difíceis (prática que adotei para a vida durante muitos anos pra dizer dos nós). Eu brincava de resta um. Eu me lembro de quase toda sessão brincar de resta um. E me lembro de quando a analista me disse veja se tiverem todos os buraquinhos com pedra não dá pra se movimentar. Os efeitos daquilo eu só fui entender muitos anos depois, mas já era uma forma de conseguir dançar com a falta.

Adolescência 

A adolescência, para a psicanálise, não é apenas uma fase de transição entre a infância e a vida adulta. É um tempo de deslocamentos profundos: do corpo, da linguagem, dos vínculos, das identificações e das formas de existir no mundo.

Algo da infância deixa de responder da mesma maneira, ao mesmo tempo em que ainda não há um lugar completamente construído para aquilo que surge. O adolescente se vê atravessado por perguntas sobre si, sobre o desejo, sobre o pertencimento, sobre o amor, sobre o corpo e sobre o modo como é olhado pelo outro.

Nem sempre essas questões aparecem em palavras. Muitas vezes surgem como silêncio, conflito, excesso, angústia, afastamento, irritação, mudanças bruscas, dificuldades escolares ou tentativas intensas de pertencimento.

A psicanálise compreende a adolescência como um tempo singular de construção subjetiva. Mais do que corrigir comportamentos ou oferecer respostas prontas, interessa escutar aquilo que cada adolescente tenta produzir como saída possível diante das transformações que o atravessam.

Escutar adolescentes é também reconhecer a potência presente em suas invenções, perguntas e modos próprios de existir. É sustentar espaços em que possam falar, experimentar, questionar e construir caminhos singulares para habitar o mundo.

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